COVID-19: carta dirigida à OMD

17-03-2020

Lisboa, 14 de Março de 2020



Excelentíssimo Senhor Bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas


Como é do conhecimento de todos, Portugal enfrenta uma pandemia de consequências muito graves para a população, sobretudo para os grupos de risco.

A infecção pelo Covid-19 foi gerida com alguma leviandade por parte do Governo, não tanto pelas autoridades locais.

É importante perceber e aceitar que nós, enquanto médicos dentistas e profissionais de saúde, frequentadores de espaços clínicos diversos, somos um grupo de elevadíssimo risco de contágio e transmissão do vírus: durante a consulta, nos espaços físicos dos consultórios que nós e os utentes frequentamos, nos materiais utilizados, entre outros. Do mesmo modo, importa sublinhar que há muitos casos de infecções subclínicas, ou seja, de pessoas que não manifestam o trio de sintomas clássicos desta infecção, e que para esses casos não se estão a efectuar os testes de diagnóstico no SNS. Ou seja, podemos ser portadores do vírus e não temos maneira de o diagnosticar a não ser num serviço privado com encargos financeiros. A linha Saúde24 está em colapso e aconselha quem demonstrar sintomas compatíveis com esta infecção a permanecer em quarentena na sua residência. Daí, ainda que os casos de infecção registados até à data sejam 245, todos sabemos que, na verdade, provavelmente serão muitos mais.

De acordo com as últimas recomendações da OMD relativamente a medidas de higiene e assépsia, e tendo em conta os resultados do inquérito realizado pela OMD no dia 13/03/2020, consideramos que grande parte das clínicas (senão todas) não dispõe do material mínimo de prevenção eficaz da infecção cruzada para esta pandemia, nomeadamente pelo esgotamento das máscaras PFF-2 e PFF-3 e, inclusive, das máscaras para consultas regulares.

Apesar de o parecer do Governo, até à data, ser contrário à necessidade de uma contenção radical, vários colegas médicos do Serviço Nacional de Saúde, bem como profissionais de saúde de outros países, recomendam que devemos reagir preventivamente face a esta pandemia e que a realidade que nos é transmitida pelas autoridades competentes é bem diferente do que acontece no terreno.

Se, há uns dias atrás, caberia à consciência individual de cada um perceber o seu risco individual de contágio e transmissão, bem como a sua rede comunitária (família, amigos e colegas de trabalho), hoje percebemos que os números divulgados pelo Governo apontam para uma progressão exponencial do número de infectados semelhante a realidades bem próximas de nós, como Espanha e Itália. Mais do que o risco do próprio contágio, importa perceber que há pessoas do nosso núcleo de relacionamentos que terão mais debilidades de saúde do que nós, e essas pessoas poderão então ser focos de disseminação da doença e terão maior risco de complicações médicas, nomeadamente a morte (a mortalidade do Covid-19 é 10x superior à da gripe sazonal).

Se não levarmos o coronavírus a sério, uma mortalidade de 1% pode transformar-se numa mortalidade de 5-10% por incapacidade de resposta dos cuidados de saúde, como está a acontecer em Itália. Neste momento, há nove doentes admitidos em cuidados intensivos. Em breve, serão mais, e bem conhecemos a disponibilidade limitada dos serviços de saúde públicos para estes doentes.

Assim sendo, entendemos que a hora de adoptar uma quarentena preventiva já é tardia. Mais do que nunca, urge contribuirmos para que esta pandemia possa ser controlada o mais cedo possível, e isso passará obrigatoriamente pelo encerramento dos estabelecimentos de Medicina Dentária. Não conhecemos todas as cadeias de transmissão possíveis do vírus nem iremos conhecer, portanto, no que toca a nós, uma vez que a Medicina Dentária é uma actividade de alto risco de infecção cruzada, parece-nos de sensatez considerável assumir que este encerramento preventivo deverá ser obrigatório.

Nesta matéria, pensando que ainda não se vislumbra o ponto temporal de controlo da pandemia e cessação do estado de emergência nacional, um encerramento de duas semanas poderá facilmente transitar para dois meses, ou até mais. No seguimento do seu último comunicado, consideramos que a OMD deverá agir no sentido de responder a alguns pontos de interesse dos médicos dentistas:

  • Quais serão os apoios sociais dados aos médicos dentistas que entenderem suspender a sua actividade por tempo indeterminado?
  • Quais serão as medidas financeiras para assegurar o bom funcionamento dos estabelecimentos de saúde e manutenção do corpo clínico durante e após o período de quarentena que, até à data, não tem termo definido?
  • Que estratégias de protecção dos trabalhadores podem ser adoptadas para fazer face a possíveis despedimentos, quebra de remuneração e cumprimento de obrigações financeiras?
  • A OMD entende e assume a necessidade de uma quarentena obrigatória? Até que medida a OMD poderá decretar uma quarentena obrigatória de todos os seus associados e assegurar o seu bom cumprimento por todos os estabelecimentos que prestam consultas de Medicina Dentária?

Da nossa parte, ainda que não sejamos uma instituição registada legalmente, dispomos à OMD todo o nosso apoio para debater estas questões e definir estratégias a levar em recomendação ao Estado português. Esta luta é de todos e precisa de todos. Reiteramos a fulcral importância de todos assumirem este período de quarentena, até à data considerada voluntária.

Cordiais cumprimentos

Nuno Gonçalves
OMD 08359
Fundador da Associação Independente de Médicos Dentistas